Maverick

O ano era 1978, Germano tinha completado vinte e três anos a poucos dias, todo o dinheiro que ganhara cortando grama, construindo cerca viva para as fazendas vizinhas nos últimos anos lhe rendeu um bom trocado e pode então realizar seu sonho, comprar o primeiro carro.

Esse carro era uma paixão antiga, certa vez, seu pai Nicolas o levou para fazer compras na cidade, algo costumeiro daquela época e, em cima do balcão da venda continha uma revista, começou então a folheá-la enquanto seu pai punha no balcão tudo o que continha na lista de compras.

Ao folheá-la, lá pela décima pagina encontrou ele, o carro mais lindo e veloz já visto, um Maverick. Ficou então um bom tempo analisando com seus belos pares de olhos azuis aquela fotografia, tentou terminar a revista, mas nada o interessava mais, apenas aquela pagina marcada por entre os dedos inconscientemente colocados. Antes de partir, vendo o interesse do garoto pela revista, Malaquias, dono do estabelecimento disse: Pode ficar garoto. Leve-a com você, é um presente. Então o agradeceu e carregou seu sonho nas mãos.

Passaram-se dezenove anos, Germano, hoje é um homem de meia idade de poucas palavras, de poucos amigos, depois que ficou viúvo, mudou-se de vez para um rancho, deixou para trás uma bela fazenda onde vivia com seu amor, queria simplesmente esquecer aquele passado, aquela história. Um dia qualquer de sol e ventos exagerados, respirou fundo e então partiu em busca de alguma razão para a vida.

Um dia estava capinando a grama frente ao jardim, chegou uma caminhonete amarela toda enferrujada, dela desceram um rapaz e um garoto, apresentaram-se e, pela tonalidade e ritmo da conversa não teve dúvida de que eram vendedores, logo mais o ofereceram queijos que fabricavam numa outra fazenda a alguns metros dali. Germano vendo o esforço do garotinho todo suado debaixo daquele Sol quente resolveu comprar o tal queijo. Ao entregar o queijo o garotinho disse: Sou Gabriel tenho nove anos e moro ali, o que o senhor faz por aqui? O Senhor tem filhos? É uma bela fazenda senhor! Sem deixar tempo para as respostas Germano disse apenas Obrigado.

Enquanto Germano despedia-se do rapaz, o garoto grita de dentro do celeiro: Minha nossa! Que carro! Tirando parte do lençol branco que o cobria. – Deixe isto ai garoto, não pode ficar invadindo a propriedade dos outros assim, feche esta porta. Saia daí, por favor! Gabriel então saiu frustrado, pediu desculpas e montou-se na caminhonete, que enquanto distanciavam-se seus olhos ficavam compenetrados através do vidro, para o celeiro onde ficava Maverick.

Germano retornou ao celeiro e, fez algo que não fazia há muito tempo, em vez de estender o lençol sobre o carro, retirou-o por completo, suavemente passou suas mãos sobre a lateral, o teto e pousou a mão sobre o capô, o brilho do vermelho do carro sem poeira alguma, ele fechou os olhos e recordou da época que saia pelas ruas no possante v8. Mas parecia tudo tão vazio, tão sem vontade, em algum momento lá trás perdera a vontade de viver, desapareceram toda aquela adrenalina que percorriam seus braços. Precisava entender.

Anoitece no rancho, uma chuva forte cobre toda a terra, talvez seja uma resposta da amada como quem ainda chora por ele, talvez a saudade dela, fizestes chover para disfarçar aquelas lágrimas, por favor, mande-me um sinal, me diga se estou vivo de fato, onde está a vontade de viver? Terei este castigo pelo resto dos meus dias? Digas-me? – Reclamou Germano através da janela olhando a tempestade lá fora e deitou-se na velha poltrona e adormeceu.

Às vezes, Germano se pegava perguntando se poderia amar varias coisas ao mesmo tempo, pois a impressão que tinha é que devia ter depositado muito amor naquele sonho e que talvez nada mais pudesse o faze-lo repetir aquela sensação novamente, de coração feliz, alegre e sonho realizado. Hoje, não se tem tantas cercas vivas para fazer nem tanta grama assim para cortar, por horas cuida de umas cabeças de gado, algumas ovelhas e mais ou menos oitenta cachorros de sete raças diferentes, algumas delas valem um bom dinheiro.

Na manhã seguinte decidiu abrir o portão do celeiro e, algo tinha acontecido, o teto do celeiro com algumas madeiras empilhadas na parede haviam caído sobre o carro, destruindo aquela lataria original, o vidro e o teto, devia ter sido a tempestade de ontem à noite, Germano então sorriu, gargalhou na verdade e começou então a chorar sentado no chão, como se nada mais pudesse de pior ter acontecido na sua vida, passou pela cabeça em dado momento terminar de destruí-lo, estava quase levantando para isso, mas uma pequena mão pousou sobre seu ombro, era o garoto de ontem, não disse uma palavra, entrou no celeiro e como uma breve volta no carro, disse: – A gente o conserta rapidinho, eu tenho algumas ferramentas em casa. Germano observou tamanha coragem daquele garoto decidido e, apenas disse: – Tudo bem garoto, tudo bem.

Combinaram de no dia seguinte pesquisar as peças na cidade e, na hora marcada lá estava o garoto, foram ate a cidade e Germano comprou algumas ferramentas juntamente com as peças do carro, além de tinta, verniz e um para-brisas novo. A fome apertou e então almoçaram em uma daquelas lanchonetes de paredes de vidro que do banco de couro amarelo dava para se ver todo o movimento na rua. Seu Germano! Saiba que o senhor está realizando um sonho pra mim, eu não vejo a hora de arrumar aquele carrão, nossa eu sonho com esse carro! Disse o garoto. Assim, durante algumas semanas foram companheiros inseparáveis, trabalhando lado a lado, lixando cada peça, separando os parafusos, misturando a tinta, Gabriel mal chegava da escola já olhando o celeiro através da janela do ônibus escolar, almoçava rapidamente e corria para o celeiro: – Bora seu Germano, temos trabalho a fazer!

Rosemary, mãe de Gabriel resolveu vigiar o filho indo até o celeiro, com a desculpa de levar bolinhos de chuva e café, dali surgiu um belo romance entre os velhos enquanto devoravam aos bolinhos e o garoto ali separando as latarias amassadas em um canto qualquer do celeiro. Mas numa manhã de domingo era o dia do teste final, estava pronto! Aquele maravilhoso Maverick, Germano havia trocado óleo, filtros e também mangueiras e correias, pois havia muito tempo aquele carro estava parado, Gabriel então fez as honras, deu a partida no possante, Germano chorava a cada acelerada que o garoto fazia em Maverick. Germano pela primeira vez saíra com o carro por aquele chão batido depois de tanto tempo parado, os dois, o garoto e ele, assim religiosamente todas as manhãs de domingo enquanto todos da vizinhança dormia, eles partiam em disparada até aquelas colinas no final da rodovia 73.

Dezessete anos se passaram Germano os deixou de repente, morreu feliz, não chegou casar com Rosemary, mas tiveram um romance em boa parte da vida do garoto. Quando completou dezoito anos ganhou o Maverick de presente de Germano, além de uma lição de vida de que não podemos deixar nossos sonhos morrerem, devemos dar continuidade, seguir adiante e por mais que pareça difícil, às vezes Deus manda anjo para que entendamos de maneira tão didática e especial de que dessa vida, devemos deixar boas histórias, saudosos sorrisos e esperança para um futuro melhor. Assim, que Gabriel tenta quebrar o seu recorde todas as manhãs de domingo a mais ou menos 120 km/h, às vezes deixa o motor de lado e acelera o pensamento do alto da colina buscando longe inspiração e paz ao seu coração.

Robson Joaquim

***

Texto inspirado em uma história real, um grande amigo que retomou a coragem de seguir adiante em seus sonhos, hoje viaja o mundo realizando-os. Extraído de uma conversa rápida em um dos meus vôos a trabalho no Rio de Janeiro. Obrigado Sr. Gabriel. Espero que goste!

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17 comentários sobre “Maverick

  1. Oooo meu querido!!! Ela está bem??? Sei que eu acabei tendo que sumir também e me desatualizei completamente. Também fiz uma cirurgia meio as pressas, mas está tudo indo bem agora. Espero que sua pequenina esta já a todo vapor, sei como é isso e como desgasta a gente.
    Claro que você não paria de escrever, está no sangue. Eu já andei meio ou completamente sem inspiração, mas acho que agora dá pra sair algo, vamos ver. Vou no seu blog jájá te ver.
    Eu é quem agradeço a você, quem, mesmo sem saber, abriu meu horizonte aqui. Você merece esses e todos os que aparecerem. Parabéns!!!
    Tudo de melhor pra vocês.
    Mil beijos.

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  2. Olá minha querida! tudo bem? Estou de volta, peço desculpas pelo anterio não pude participar. Estive em um processo de cirurgia da minha pequena e, graças a Deus ela está bem. Bom, deixar de escrever nunca! estive escrevendo em guardanapos, meu caderno e laptop também mas não me senti a vontade para publica-los. Mas vou irei revisá-los para que vocês os conheçam.
    Bom quero dizer Obrigado pelas indicações ao DARDOS gostaria que antes de mais nada que é uma honra participar. Obrigado pela confiança de sempre e pelo carinho ímpar. Participarei com o maior prazer!! Beijokas!!!! O Reportter voltou! quer dizer, ainda dá tempo?

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  3. Então senhor, sumiu hein! rsrsrs Imagino que cheio de trabalho, esse fim de ano não foi fácil pra ninguém.
    Enfim, como não tem podido aparecer por aqui, resolvi passar eu mesma e te desejar um ano de 2016 repleto de tudo aquilo que necessitar e te fizer bem. Que continue tendo muito trabalho e que possa, ainda, deixar aqui sua contribuição pro nosso dia ficar mais feliz.
    Muita saúde, Paz e Amor pra você, sua princesa e toda família.
    Mil beijos <3 :D

    Curtido por 1 pessoa

  4. Nossa, me deu vontade de chorar. Linda a homenagem que fez e linda a mensagem que passou. Quantas vezes deixamos os sonhos morrerem por desanimo, falta de coragem ou mesmo a opinião dos outros. Os anjos aparecem e nem sempre são completamente bons, mas mostram o caminho. Acho que o difícil é acreditar. Histórias assim são um fôlego novo no meio dessa vida tão corrida.
    Obrigada Robson. :)
    Beijo grande :D

    Curtido por 2 pessoas

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