Páginas da vida

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Somente porque nos deixam marcas, o tempo se acha! E como se acha… Nem mesmo o vento que não guarda os segredos, tem a audácia de assumir o posto de maior delator de todos os tempos e, não é que ele gosta? Confesso-te que tem dias que a saudade aperta, as lembranças voltam tal como mar revolto dentro do coração, de repente, como imensa onda batem furiosas, impacientes e voltam estilhaçando pensamentos, sufocando de lembranças o coração transbordando-o às lágrimas.

O andar cru sobre aquele chão batido, o cheiro da grama ainda molhada pela chuva daquela tarde, depois que você tinha partido ainda carreguei minha boca adormecida por seus beijos, me lembro de que fui te ver escondido de todos, eu precisava de dar um adeus, não foi fácil chegar perto de você, estava escoltada por seus irmãos na estação. Lembro-me bem, arrisquei a minha vida por você naquele dia, podia ter morrido mas não sairia dali sem um beijo seu. Cheguei cedo à estação, escondi-me no banheiro feminino na ultima porta da parede, quando você apareceu com a desculpa de usar o banheiro antes de embarcar, ali nos beijamos e tu fizestes aquela promessa que carrego comigo até os dias de hoje.

Agora, somente agora 52 anos depois teremos a chance de nos encontrarmos novamente. Acreditas que ainda sinto suas mãos sobre as minhas desde a tarde daquele sábado? Ainda sinto seu beijo molhado, olhos lacrimejando e aquele olhar piedoso na janela do trem. Confesso-te que jamais amei outra mulher nesta terra que não fosses tu. O céu bem que pode ser minha testemunha. Sua família nunca aprovou nosso namoro, por isso te mandaram estudar tão longe de mim, também pudera eu me apaixonei loucamente por você, um amor muito forte que fazia meu coração desejar saltar mundo afora, se pudesse viveria ao seu lado para todo o sempre.

Mal sabes tu, que na mesma tarde que partiste, teus irmãos junto ao teu velho vieram em minha direção e não respeitaram minha dor, determinaram-me não te procurar de espécie alguma se tivesse algum amor à vida. Não fui covarde, tentei e muito te procurar, deixei a poeira abaixar, mas o estranho foi que você nunca me mandou cartas, nem sequer respondeu as minhas, talvez teus irmãos tenham dado cabo dos meus escritos. Tu nem acreditas, mas os anos passaram, casei-me tive oito filhos, cinco ainda estão vivos, a falecida que Deus a tenha, cuidei-a com muito carinho até teus últimos dias, talvez no fundo ela soubesse que verdadeiramente meu coração pertencia a outra pessoa, pois por mais que olhava em seus olhos e, não via os seus.

Só ontem recebi das mãos de teu irmão caçula seu recado e, obtive a sua bênção depois de uma longa conversa em um destes encontros por acaso aqui na avenida da cidade. Me disse que estás bem e que também tu estás viúva. Até deixou comigo uma fotografia sua, confesso que ainda estás muito bela! Disse a teu irmão que gostaria de te ver, conversarmos a sós em algum banco da praça. Não sei o que o destino nos reserva, mas não sei se guardo esta história sem um ponto final dentro do peito, a mesma página está aberta à anos. Em contrapartida já abri e fechei vários cadernos. A nossa página ainda está aberta, com folhas amarelas iguais ao Salmos 91 em cima do porta bíblias, gostaria muito de resolver esta história, se tiver que fechar esta página que seja também assinada por ti.

Ainda assim, queria ir voando para teu lado, mas minha idade já não permite e Deus o livre acontecer algo comigo neste céu e não puder te ver em terra. Por aqui, ainda funciona um velho trem de passageiros, talvez o único que sobrou neste pais, é nele que estou sentado agora, na mesma posição da janela que tivestes, o trem parte exatamente às 7h30 e vai mostrando Belo Horizonte de um ângulo que a gente raramente vê. Entre Belo Horizonte e Cariacica, no Espírito Santo onde tu estás, serão 664 quilômetros, esta locomotiva vai levar 13 horas para chegar ao destino, numa velocidade média de 52Km/h. Assim como a 52 anos atrás quando você partiu, aqui me sinto como tivesse meus 18 anos e você com 16, tive tempo de escrever este diário e ver do seu ângulo, sentir o que sentiu ao ver nossa felicidade ficando naquela curva ao longe.

Sabe, não importa se esteja tão velhinha a ponto de precisar de meu apoio, pois estarei aqui se precisar, não importa se esteja com a visão fraca, desde que reconheça minha voz, realmente não importa pois o que mais quero é ter seu coração de novo. Grande é minha ansiedade, pode ser que você ao me ver não me reconheça como teu amor, o mesmo pode acontecer comigo, mas o que importa é que temos uma história inacabada, pendente de anos atrás e não posso partir deste mundo sem finalizá-la.

Esperei tanto por este momento, sonhei tantas cenas para este encontro desde cavalo branco até ser barão do petróleo, mas nada disso sou, apenas um velho romântico, carregado de sentimentos. Ainda trago neste velho peito um amor verdadeiro. Mesmo que não aceites a ficar comigo, que opte por apenas sermos amigos até nosso derradeiros dias, aceitarei, estarei feliz, pois nesta vida, nunca amei alguém assim como você, por mim, nossa página ainda está aberta.

Seu Toninho escreveu esta carta no percurso de trem entre Minas gerais e Espírito Santo, estava amassada, provavelmente tinha escrito para desacelerar seus pensamentos. Quem encontrou o papel amassado, desdobrou, leu e guardou nos arquivos da velha estação. Quem possui páginas da vida ainda aberta? Um caderno cheio de recordações que ainda não se pode guardar na estante da vida por não estar completo, ou falta-lhe apenas aquelas palavrinhas que fecham qualquer história de amor? Não poderia ter essa história uma segunda edição com um final mais surpreendente ainda? Mais bonita? O que te impede de fechar o passado e seguir adiante, ou simplesmente trocar um ponto final por um uma vírgula?

Robson Joaquim

[Tema sugerido pela amiga e leitora Thais Dayane  – Osasco SP]
Temas | Se tiveres também alguma sugestão de tema, deixe-o abaixo e assim que possivel publicarei”

 

* * *

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18 comentários sobre “Páginas da vida

  1. Lindo texto esse! Sempre existem histórias que deveriam terminar com duas assinaturas, mas não o fazem. Algumas vezes, terminam assim, mas em páginas diferentes e papeis distintos. A vida segue e só podemos esperar, muitas vezes, que o destino encontre seu caminho enquanto seguimos o nosso, como na história. Parabéns pelo texto e por dar o merecido crédito a leitora que sugeriu. Parabéns aos dois.

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