Então me abraça forte!

O Sol já desponta no céu alaranjado iniciando as primeiras horas de sábado, Dona Jorgina, apanha sua valise de couro vermelha conservadíssima que fica dentro de duas sacolas acima do velho guarda roupas. E ela sabe que terá uma longa jornada, pouco importa a fadiga, a vontade de ver seus netos supera tudo, organiza cuidadosamente suas roupas dentro da valise.

Senta-se junto à mesa enquanto saboreia uns goles do café preto, conversa com os retratos dos netos acima do armário da cozinha. Três anos se passou desde que viu seus netos pela última vez, no casamento de Daniele, sua outra neta. A saudade é imensa, as mãos trêmulas da idade misturada à emoção de visitá-los confere na carteira de crochê os trocadinhos para a passagem apanha um pote com uma ampla fatia de bolo de milho, feito na tarde de ontem, e parte em direção a rodoviária. Mais algum tempo lá está ela sentada na poltrona D14 perto da janela, o ar condicionado do ônibus a força colocar seu casaquinho, ignora o filme legendado na Tv e prefere observar a paisagem da estrada seis horas de viagem até São Paulo.

Perto de meio dia chega ao terminal Rodoviário do Tietê, e num andar manso procura a qualquer custo desviando-se da multidão que passa a sua frente chegar até o telefone público mas desiste. Prefere perguntar a outra senhora:

– Como faço para chegar à Estação Sorocabana?
– Estação Sorocabana? Ah! Sim a estação Júlio Prestes. Para onde a senhora está indo?
– Para Osasco, respondeu de bate-pronto.
– Algumas coisas mudaram por aqui, deixe me anotar para a senhora exatamente como deve fazer.

Seguiu cuidadosamente as anotações feita por aquela senhora. Chegou a Osasco apanhou o ônibus no terminal e seguiu rumo à Av. Flora. Poucos minutos para abraçar fortemente seus netos, bateu palma e nem percebeu que havia campainha ao lado da caixa de correios. Seu neto colocou a cabeça para fora da porta e imediatamente gritou ao pai que havia uma mulher no portão. Ao fundo alguém pede que avise que seus pais não se encontram, mas antes do menino responder Dona Jorgina interrompe dizendo:

– É sua avó Gabriel, não me reconheces? Chame seu pai!

Mesmo desconcertado o filho vai receber a mãe no portão, a beija timidamente e só no quarto degrau rumo à porta se oferece para carregar a valise da mãe. Dos netos apenas recebeu um “oi vó” e se esparramam no sofá mexendo o tempo todo no celular, até a Andrea de oito anos já tem celular, sua nora ainda dorme. Enquanto bebe a um copo de água, pergunta ao filho como está a vida, que sentiu saudades, da escola dos netos e se recebeu as cartas que lhe enviou durante o inverno.

A neta interrompe a conversa do pai, questionando-o se ainda irão ao cinema agora que sua avó chegou, pois sua melhor amiga está perguntando no whatsApp. O pai desconversa, o neto xinga por não passar de fase no jogo no celular, a nora acorda e vai direto ao banho, o filho recebe uma ligação e abandona a mãe sentada sozinha na cadeira dura da cozinha, ela apanha as louças da mesa para lavar, percebe o neto dar apenas uma mordida no bolo e cospe no quintal.

Filho fala comigo, desliga o telefone! A mãe veio de longe conte sobre seus planos. Filho sou só, vocês não me visitam não tenho mais neto para conversar, já não se olham mais nos olhos, nem se conversam… é o tempo todo no celular, tempo que não volta. Ladrões do tempo, preste atenção na vida! Um dia, sua mãe não estará mais aqui, e os eletrônicos não suprirão o amor de família, nem a saudade do que você não viveu com eles enquanto estavam. Acorde e viva no mundo real!

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem

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2 comentários sobre “Então me abraça forte!

  1. Com certeza Bruna, o distanciamento e o desprezo das pessoas estão se tornando tão natural hoje em dia, infelizmente. O auto isolamento no mundo virtual aparente seguro, sem dor, onde tudo é perfeito, ninguém é triste, é mais fácil para alguns do que colocar em prática a beleza da vida real, o contato com as pessoas, a pratica dos sentimentos e saber que até algumas decepções ou dores nos ensinam muitas das vezes.
    Um grande beijo, Robson.

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